- Me dá um pedacinho de bombom?
Estava eu, em algum período de 2012, saboreando uma daquelas maravilhosas trufas de chocolate da Cacau Show enquanto caminhava até o trabalho. Fui surpreendida por uma mulher desconhecida, na faixa dos 60 anos, que me fez o pedido acima.
No momento, me passou pela cabeça dizer não e prosseguir o meu caminho, mas o pensamento só durou um segundo: seria muito egoísmo ignorar seus olhos suplicantes como os de uma criança. Além disso, seu pedido tinha um tom de expectativa quase infantil e suas roupas gastas e a trouxa que carregava nas mãos indicavam que aquela mulher há muito não podia comprar um único doce: sua vida era amarga e cheia de privações.
- Pode ficar com o meu- disse à mulher.
Segui o meu caminho e aquela estranha seguiu o dela. Caminhei com a satisfação de quem deixou seu mundo com um pouco mais de dulçor.
A vida de uma professora de Língua Portuguesa com alma de artista em busca da simplicidade.
domingo, 9 de junho de 2013
sábado, 8 de junho de 2013
Sobre fadas e bruxas
Toda menina em algum momento deseja ser fada. Comigo não é diferente.
Na infância a fantasia aparece com o faz-de-conta, em que temos o poder de fazer com que amigos invisíveis: princesas, fadas e príncipes; tomem forma. Na adolescência, queremos ser fadas para encantar as pessoas à volta e descobrir mistérios que só o coração sabe: para isso, nos metamorfoseamos em patricinhas, nerds, poderosas ou em nós mesmas. Todas queremos deixar o nosso nome no mundo (o que invariavelmente me faz lembrar o quanto minhas alunas adoram escrever seus nomes no quadro negro).
Na vida adulta, ser fada passa a ser inevitável: de que outra maneira uma mulher conseguiria trabalhar, estudar, cuidar da casa, dos filhos e ainda assim encontrar tempo para ser encantadora?
Gostaria que o meu encanto contagiasse meus alunos como sonhei nas minhas brincadeiras de infância. Gostaria de ser fada, mas tem me faltado aquela leveza e disposição em encantar, pois minhas tentativas têm sido em vão.
Encontro-me novamente assustada com o mundo, assustada com o lugar para onde as minhas escolhas me levaram e sobretudo, tem me passado pela cabeça a ideia de desistir do meu velho sonho de ser professora.
Mas não vou. Me culparia eternamente pelos anos desperdiçados com xerox, papel caneta e dedicação intelectual em um dos cursos mais densos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Eu me culparia, mesmo sabendo que os alunos que me lançam pedaços de giz e mancham minha roupa com corretivo não dão a mínima para minha culpa. Estão errados, mas tento entendê-los: são obrigados a estar na escola mesmo quando não querem, e nem ao menos entendem o porquê.
O que eu poderia dizer a eles eu já disse: chamo a atenção, grito (e como grito: se antes eu era uma soprano que ia até as notas mais agudas, hoje minha voz tem quase a extensão de um tenor), converso, falo sobre a vida e suas exigências. Entretanto, talvez a maioria deles ache que o discurso de uma professora de 23 com cara de adolescente de 15 seja hipócrita e vazio, alienado e repetitivo, como se eu não conhecesse nada sobre a vida e estivesse repetindo a fala dos outros. Mas insisto por aqueles que confiam no meu trabalho, sobretudo por mim mesma.
A educação impulsionou a minha vida: o que sou hoje devo a ela. Mesmo que a minha fada interior esteja machucada e triste, vou continuar.
Semana que vem vou deixar minha fada descansar um pouco e vou despertar a minha bruxa. Detesto me impor pelo medo mas a curto prazo não tem jeito: preciso mostrar-lhes que não estou para gracinhas...
Mas assim que a fada melhorar eu a acordarei... E seremos felizes para sempre!
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